Ovelha negra

Minha mãe falou: ” você é a ovelha negra da família”. Foi brincando, eu sei. Ela riu. Mas sabe, ela tinha razão.
Cresci numa família tradicional. Dois irmãos – homens e mais velhos -, mamãe e papai. Fui criada aprendendo a cozinhar, enquanto os meus irmãos podiam brincar lá fora na lama, e se eu falasse que queria, “não é coisa de menina” mamãe respondia. Aos domingos almoçamos na casa dos meus avós – vovó Amélia e vovô Luiz – por parte de mãe e as quartas jantamos na casa de vó Lais, a Lala, mãe de papai. Vó Lala, apesar da idade, é a mais cabeça aberta da família e sempre apoiou minhas decisões. Foi pra ela que contei quando perdi minha virgindade, aos dezesseis, e sabe o que ela falou? “Cuidado pra não engravidar cedo minha filha, com um filho, ainda mais mãe solteira, fica mais difícil de conquistar o mundo, coisa que você vai.” Vó Lala é realmente demais.
Enfim, voltando a mim. Tenho 19 anos e sai de casa aos 17, expulsa pelo meu pai. Hoje em dia até falo com ele novamente, mas não temos lá a melhor relação. Bissexual, 23 tatuagens e tenho piercings em lugares que, digamos assim, mesmo se eu estiver de biquíni você ainda não pode vê-los. Publicitária em uma família de advogados, médicos e engenheiros. Vó Lala é a única que apoia minha escolha, ainda mais porque, quando jovem queria ser jornalista. Não conseguiu. Mas sonha o meu sonho junto comigo, e diz ela que já tá de bom tamanho.
Minha mãe até me apoia um pouco na escolha da profissão, mas preferia que eu fosse médica, igual o pai dela. Inclusive, ela mesmo chegou a começar a faculdade de medicina, mas burlou as regras da religião, transou antes do casamento, engravidou e por isso teve que casar. Com isso tudo ela acabou largando a faculdade pra virar dona de casa. Se arrepende um pouco, mas não confessa isso nem sobre ameaça.
Falei de religião, mas mamãe nunca foi tão religiosa assim. Vó Amélia e vô Luiz são espíritas kardecistas e mamãe também é. Papai não, é um católico que não aceita nada que não seja isso, mas não podia ser diferente, o vô Ricardo, pai dele, seguia o catolicismo de olhos vendados. O pior é que obrigava vó Lala a fazer o mesmo, e naquela época, de acordo com a sociedade, ir contra o marido não podia, então ela era obrigada a concordar e fazer o que ele mandasse. Quando ele morreu, deu graças à Deus. Abandonou o catolicismo e virou budista. Me levou junto e simplesmente amei. Papai não concordou, e até brigou. Falou que eu fiquei fazendo a cabeça de vovó depois que vô Ricardo morreu. Dá pra acreditar?
Sobre meus irmãos eu não tenho muito o que falar. Não me dou bem de jeito nenhum. Machistas que tem a cabeça mais fechada que cadeado. Aprenderam com papai. Nenhum dos três nunca aceitaram qualquer decisão que viesse de mim. Brigam com mamãe falando que ela tem me dar juízo. Tadinhos, mal sabem que tentar ela tenta, mas esse remédio não pega em mim de jeito nenhum. Ainda bem, porque do “juízo deles” eu quero distância.
Mas enfim né, tava falando de ser a ovelha negra. E sou mesmo. Vó Lala também. Mas ela ainda carrega um pouco do machismo-conformismo que a sociedade lhe enfiou pela guela. Mas isso, claro, nada que a ovelha negra aqui não vá curar.
Hoje em dia meus irmãos, que cresceram pra serem “homenzinhos”, dependem completamente das mulheres. O mais velho, que tem 26, casou aos 19 e tem a mulher como submissa. Se formou em engenharia e na profissão até é bom, mas em casa não sabe nem fazer miojo. Se bobiar, depende da mulher até pra banho tomar. O do meio tá fazendo faculdade de direito, foi obrigado por papai a escolher essa profissão. Ainda mora com meus pais, trabalha com meu pai porque não tem capacidade de arrumar qualquer outro emprego e depende da minha mãe quase até pra amarrar os sapatos.
Já eu, bem, sei cozinhar e arrumar a casa, já que foi a mim que mamãe sempre ensinou tudo isso, mas também sei ir pra rua e brigar pelos meus direitos. Já trabalho na minha área e ganho meu próprio dinheiro, meu próprio sustento, sem depender de absolutamente ninguém. E ainda faço faculdade e tomo conta de casa, minha casa. Moro de aluguel, moro sozinha. Vivo a minha vidinha. E eu me orgulho muito dela. E vovó Lala também. E pra mim, é só isso que importa.

– Marina Frael de Abreu

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2 comentários sobre “Ovelha negra

  1. Com este texto você me deixou rendida ao seu blogue. Amei a escrita de paixão. É descontraída mas muito linda mesmo. O carinho que transmite quando fala da Vó Lala é fenomenal. Felizmente tenho muita sorte porque meus pais são muito mente aberta, então eu acho que nunca iria sofrer com eles independentemente das minhas opções.

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