Entre cicatrizes e lembranças

Leia o texto ao som de Don’t kill the magic e seja mais feliz

Dã-tum dã-tum. Na minha cabeça é esse o barulho que faz o dígito piscando, esperando que eu digite algo nele. E a ideia tá ali, pronta e formada na minha cabeça, mas eu, que sempre me gabei tanto por ser boa em me expressar através da escrita, não consigo transformar em palavras tudo aquilo que a minha mente não consegue parar de pensar. E o que o coração não pára de sentir.
A xícara de café que está ao meu lado ainda sai fumaça, e eu que sempre odiei bebidas muito quentes, já tomei quase metade dela tentando entender. Sim, entender.
Não consigo transformar em palavras por não conseguir entender ou explicar. É confuso, além do normal. Do meu normal.
A ideia para um bom texto, a personagem – que seria eu mesma – e toda a história já estão prontas e acabadas. A história aconteceu comigo mas foi tão rápido que eu nem percebi. É como a testemunha de um crime, você sabe que realmente aconteceu, mas não se lembra de nada – e no fundo torce pra que aquilo não seja real.
Só que o crime que eu testemunhei não lembro detalhes, mas consigo saber que foi uma tentativa de homicídio com o meu coração. Mas não foi de propósito, foi homicídio culposo, é como eles chamam quando não há realmente a intenção de matar. E não tinha. Mas quase matou. Estragou, dilacerou, feriu e quebrou. Deixou ele em um ponto que jamais se recuperará, não por completo.
A minha mente, em uma tentativa de esquecer, se confunde e não lembra. Porque não quer e porque não consegue. Dentro de mim, eu torço do fundo da alma para que tenha amnésia. Tudo bem se eu esquecer tudo de bom que já aconteceu na minha vida, contanto que eu esqueça aquilo, eu faço os momentos bons de novo e renovo, faço outros.

É tudo tão complicado e tão claro ao mesmo tempo. Parece com uma das histórias que sempre adorei imaginar mas que nunca quis que acontecessem comigo. Histórias cheias de drama, romance, aventuras e loucuras. E essa combinação pode ser ótima na ideia, na teoria, no script, no roteiro, mas na vida real emoções demais apenas machucam. Porém, infelizmente, toda essa experiência foi bem real e foi comigo que aconteceu. Mesmo que muitas vezes não pareça, mesmo que muitas vezes – talvez por eu não querer – eu não acredite. É como se eu tivesse assistido a um filme que não prestei muita atenção mas que eu sei que a história foi boa, mesmo tendo me arrancado (muitas) lágrimas no final. Lágrimas, dor e todo o amor. Mesmo tendo me feito parar de acreditar em finais felizes.
É como um daqueles filmes que não acabam como esperávamos porque o final foi real, foi como uma história de verdade e não apenas uma encenação pra fazer com que nós acreditemos em vidas perfeitas e amores inatingíveis. É como “Um dia” ou “Pronta pra amar”, você espera uma pegadinha no final, como se o final não fosse realmente o final, como se as lágrimas fossem ser recompensadas com uma surpresa maravilhosa. Mas a surpresa não acontece. É a vida real. E esses são meus filmes favoritos.
Finais felizes talvez não existam porquê nada que é feliz chega ao fim. Eu nunca pensei desse jeito antes, e talvez – e muito provavelmente – esse seja só o pensamento de uma deprimida que tenta se convencer de algo que nem sei o que é. Que tenta se convencer que era assim que tinha que ter sido mesmo e não podia ter sido diferente. “Foi melhor assim”, uma das piores frases de consolo que existem, principalmente quando digo pra mim mesma sabendo que é mentira.
O meu felizes para sempre não aconteceu. Não aconteceu o para sempre, e também não aconteceu o felizes. Aconteceu apenas uma história, que eu ainda nem entendi, que eu ainda nem decorei, mas que me fez sofrer. E ainda faz. E vai fazer sempre que eu lembrar. Então talvez o meu para sempre exista, só que não é feliz. Pelo contrário, é triste, um fantasma que sempre vai me assombrar. Mas me apego a ideia de que, com o tempo, o sofrimento diminui. Daqui há um tempo, quando eu lembrar, vai doer e incomodar menos. Até chegar ao ponto que já não incomoda mais, e mal dói também. Vai ser como apertar uma cicatriz, você vê ela e sabe que ela está ali, mas ela já não te causa mais problemas e nem te faz mais nenhum mal. Ela já não te machuca mais. Você se acostumou a ter ela contigo, e também já decorou que ela faz parte de você, mas ela é apagada e mal lembrada. Ela é apenas mais uma parte da sua pele. Mas as suas tatuagens, tão bonitas e coloridas, construídas em um futuro, fazem com que ela seja um nada comparada a tudo. Eu me apego a esperança de que, daqui há algum tempo, a cicatriz vai ser apenas uma parte triste de uma vida feliz.

marina

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