A madrugada do amanhã

Ler ao som de 6h34 – Visconde 

Quatro da manhã. Mas você chamaria de madrugada, de ontem. Sempre achei engraçada a maneira como você nega que a madrugada faça parte do dia que ela realmente faz e insiste em dizer que ela faz parte do dia anterior. E quando quer falar dos acontecimentos de tais horas noturnas sempre diz a madrugada de um dia pro outro como se aqueles muitos minutos fizessem parte de um vácuo do dia, um momento que existe mas não deveria. Talvez na tua cabeça madrugadas não deveriam existir e isso com certeza explicaria o fato de serem tuas horas preferidas das 24, ou seriam 18 + 6?

Não vou começar com a minha matemática, juro. Acabou. Mais coisas do que deveriam, inclusive. Ou talvez o verbo certo seja queríamos. Quer dizer, eu posso conjugar esse verbo na primeira pessoa do plural? Provavelmente é melhor no singular, eu (não) queria. Meu singular, minha singularidade de ter sido burro o suficiente de fazer parte do teu amor e perder isso. Antes que você diga, não te acuso de querer que acabasse, não antes de começar a querer isso – e de ter motivos pra tal vontade. Motivos completamente justificáveis que lhe dei em uma bandeija, você me pediu uma carta de amor e eu te entreguei uma cabeça. E agora te entrego uma (quase) metáfora que talvez nem faça sentido. Talvez nada disso faça mesmo. E o pior é que a cabeça não era minha, era de uma terceira pessoa que veio com corpo, alma e sexo. E você olhou na minha cara e disse que ela não tinha culpa de nada, e não tinha mesmo. Ela nem sabia que eu namorava – e amava – outro alguém. Não outro alguém, você. Meu outro alguém que não é meu e nunca foi porque nunca me pertenceu. Você nasceu pra voar e ser livre e sempre odiou quando minha referência à você envolvia um “minha”. Não sou tua, respondia, apenas namoro contigo e se pertenço a alguém, este alguém sou eu. Voltando a terceira cabeça – que tinha corpo, alma e sexo -, ela não teve nenhuma culpa e em toda tua inteligência, tu sabia disso e apenas me atribui a culpa. Eu que te devia algo, eu que deveria responder a confiança que tu depositava em mim, eu que deveria cumprir minha parte no acordo de namoro monogâmico que incluiu fidelidade. Mas não fiz e você foi embora. Não te culpo e, em toda minha sinceridade, se ficasse lhe acharia burra, coisa que tu nunca foi, e por isso não ficou. Porque não um pouco mais burra? Só o suficiente pra me perdoar e voltar. Volta, por favor. Preciso de ti aqui, do meu lado, me dizendo que as merdas que faço vão passar e me servir de lição. E isso vai me servir de lição, sei bem, mas pra que merdas quero aprender uma lição pra um outro alguém que não você?

Já são cinco da manhã. Da madrugada. E nas tuas horas loucas de dias com madrugadas que acontecem depois talvez seja vinte e três horas. Ou talvez o vácuo não conte tempo. E eu prometi acabar com a matemática, apesar de isso não ser bem matemática e sim números. Mas eu vou acabar com a lógica, essa lógica chata que não me permitiu sentir teu amor antes de perde-lo.

marina

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