Sobre horas e madrugadas


– Bom dia!
– Tarde. Já são cinco e meia.
– O dia tem vinte e quatro horas e o bom dia vale pra ele todo. E se você quer ser mais literal e dividir por dia e noite, beleza, mas de seis da manhã até cinco horas cinquenta e nove minutos e cinquenta e nove segundos da tarde ainda é dia.
– Se eu quiser ser literal eu digo tarde, que foi o que fiz.
– Ok. Mas quando você falou tarde, você fez isso em uma tentativa de me corrigir quando eu não estava errada.
– Justo. Mas porque você não pode simplesmente aceitar o meu tarde?
– Eu aceito o seu tarde, eu não aceito é você me corrigir quando estou certa. Sem falar que, não revira os olhos, to falando sério.
– Você acabou de revirar o olho também.
– Graças à sua revirada.
– Mas fez.
– Sem falar que quando te dou bom dia quero te desejar um dia todo bom, mas se você pretende me desejar apenas uma tarde boa, então tudo bem.
– Sem drama, é apenas uma expressão devido a horas. Eu quero sempre que seus dias sejam bons.
– Eu sei. (…) Não revira o olho.
– Então porque faz drama se sabe?
– É um falso drama. E faço porque gosto de ver você irritado com ele.
– Que graça.
– Exatamente desse jeito ai mesmo.
– Que graça.
– Quebrou o disco? (…) Vai me ignorar. Ok. Só me responde, porque faz tanta questão de falar tarde mas a madrugada é noite? Quer dizer, se a intenção é dividir a parte do dia em dois, a parte da noite também deveria ser dividida, tem quatro partes ao total. Sendo assim você deveria me dar boa madrugada quando ficamos conversando até altas horas, e não boa noite.
– Ainda nisso?
– O tema é o mesmo: horas e partes do dia. O foco mudou.
– Muda o tema.
– Me responde
– Muda o tema
– Me responde
– Muda o
– Não enquanto você não me responder
– Por que altas horas?
– Oi?
– Não deveriam ser baixas horas?
– Hãm?
– Madrugada. Altas horas. Mas é o começo do dia então deveria ser baixas horas.
– Eu não considero o começo do dia, pra mim madrugadas fazem parte do dia anterior ao que elas fazem. Do dia em que a gente pega elas, que a gente ainda tá acordado.
– Você. Mas você é estranha e uma peça particular.
– Existe gente que pensa que nem eu. Você, por exemplo.
– Mas não é. E elas começam com 0. Número baixo.
– Mas acho que o altas horas não seja pelos números mas sim pelo fato de que em madrugadas acontecem altos agitos.
– Altos agitos? Aonde consigo essa máquina do tempo que vem de 1980?
– Idiota.
– Meu ponto é que
– Para de rir
– Não posso mais rir?
– Você tá rindo do altos agitos
– Claro
– Porque?
– Será porque ninguém fala assim?
– Eu só quis combinar com alta.
– Salta combina melhor.
– Você entendeu o que eu quis dizer.
– Sim, e você ainda não respondeu aonde consigo a máquina do tempo. (…) Agora você que me ignora.
– Claro
– Rá.
– Ré. Ri. Ró. Ru. Rão.
– Idiota. O rá foi porque parou de me ignorar quando me respondeu, logo seu trabalho foi mal feito.
– Igual o teu.
– Porque?
– Até agora não explicou teu problema com o altas horas.
– Áh sim, verdade. Eu acho, quer dizer, expliquei sim.
– Você só falou que achava errado pelos números, que começam do zero e isso quer dizer que são baixos.
– E essa não é a explicação?
– Mas qual o seu ponto? Você não explicou.
– Precisa de um?
– Você ia dizer mas eu te cortei
– Logo a culpa é de quem?
– Sua, que não voltou a frase depois e tem mal de alzeimer e não lembra de continuar o que fala.
– Meu ponto é que, bem, eu não lembro meu ponto.
– To dizendo. Vai se tratar, isso ai é caso de psiquiatra.
– É que quando me mudei pra tua casa, me mudei pra um manicômio e parece que loucura pega.
– É desrespeitoso falar manicômio.
– Você só chama assim
– E não disse que não faço, eu disse que é falta de respeito
– E com isso você quis dizer que eu não deveria fazer
– Igual a você quando disse tarde
– Vai voltar pra esse assunto, jura?
– Depende, tem que ser juramento com dedinho?
– Idiota. Às vezes você não faz sentido.
– E você faz?
– Esse é teu argumento de defesa?
– Não sabia que a gente tava num tribunal pra mim ter que montar um, mas é sim.
– Não faz sentido.
– Claro que faz. As pessoas não fazem sentido, ao perguntar se você faz apelo pro lado em que te faço pensar se tu faz. Se alguém faz.
– Não faz sentido.
– A gente não ia voltar a falar da tarde?
– Se depender de mim não. Até porque já são seis e dois.
– Boa noite.
– Achei que o bom dia valia pro dia todo.
– Ele pode valer, mas o meu era só pelo dia.
– E o teu boa noite, é só pela noite ou pela madrugada também?
– Só pela noite.
– Isso significa que você não quer que eu tenha uma boa madrugada?
– Exato. Espero que você tenha uma baixas horas horríveis. E muitos pesadelos.
– Que você também tenha uma péssima madrugada.

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