3h55

Para mais poesia, ouça Ne me quitte pas – Edith Piaf

Uma vez fiz uma poesia aonde as árvores eram azuis e os limões eram doces. Isso não é uma metáfora e ela realmente existiu, mas não consigo me lembrar. Eu acho que talvez até saiba o porquê de te-la feito, mas certeza é uma coisa que não tenho.
Quando eu era pequena adorava escrever músicas, na verdade meu sonho era ser cantora e ter uma banda. Tinha até um microfone e uma guitarra de brinquedo. Uma vez escrevi uma música sobre pérolas coloridas e uma pérola verde ou, bem, foi algo assim, mas eu sei que tinha pérola verde no meio. Anos depois eu conheci “o verde” e gritei pra lua, conversei com ela, mas ela nunca me respondeu. Eu não ouvi pelo menos. Ou talvez sua resposta tenha sido antes mesmo da minha pergunta, sua resposta foi que eu e a cor verde temos história. Passado, presente, futuro e pretérito imperfeito.
Quando criança também sonhava em ser espiã e adorava brincar de aventura. É uma brincadeira que todo mundo brinca mas como eu coloquei um nome dizia que tinha sido eu que inventei, mas eu realmente achava que tinha inventado. Confesso que parte de mim ainda quer ser espiã, talvez por isso eu seja tão vidrada em séries policiais. Eu sei que graças a essa minha brincadeira, graças a eu ter mandado fechar o elevador, colocaram um cadeado nele pra ninguém mais poder fechar. Seria feio falar que eu sempre gostei de saber que aquele cadeado estava ali por causa de mim?
Nesse momento meu cachorro, dormindo, rosna e eu me pergunto com o que será que ele sonha.
Eu sempre gostei muito de escrever e quase tenho uma coleção de cadernos de poesias, poemas, músicas, textos… Eu fui assaltada uma vez, levaram meu celular, maquiagem e até caderno de escola. Dentro do caderno tinha um texto meu, um que eu estava morrendo de amores, e esse foi o que mais me doeu perder. Me pergunto se alguém leu ele, e se gostou.
Meu cachorro ronca e mexe as patas como se estivesse cavando. Ele também mexe o nariz como se sentisse algum cheiro. Me pergunto com o que ele sonha. Me pergunto como ele enxerga a vida. Não pelos olhos, mas pela mente. Ele entende o que digo? Porque às vezes posso jurar que sim.
Outro dia gritei com ele e falei que deveria me obedecer pois sou tua dona. Depois pedi desculpa. Não pela bronca, pois estava certa em dar, mas por dizer que eu era tua dona já que não sou – ele é um ser vivo e seres vivos não tem donos. Pedi desculpa e deixei claro que, como mãe dele, ele tem que me obedecer e ficar quietinho. Ele obedeceu, ao menos por ora.
Já conheci tanta gente que não lembro o nome. Já conheci tanta gente que nem lembro de ter conhecido. Será que se lembram de mim? Às vezes lembro de certas coisas, como a menina que eu conheci em um curso de uma escola que nem era a minha e me apresentou a música “de borest”. Eu ria excessivamente demais ouvindo essa música e apresentei a música pra muitos outros amigos que riam também. Uma vez, me despedindo da minha tia pra ir pra escola, ela mando eu ir de borest – e não, ela não mencionava a música que nem conhecia – e eu fui mesmo, inclusive rindo por todo o caminho.
Falando em rir na rua, isso é uma coisa tão engraçada porque eu faço isso o tempo todo. Me perco em meus pensamentos e quando vejo começo a rir ou falar sozinha. Por sorte, ou não, sei controlar o volume e nunca é alto. Mas às vezes eu também fico sorrindo quando vejo cenas fofas, pelo menos que pra mim foram fofas, mas ninguém sabe que eu vi a cena e todo mundo pensa que eu to feliz e rindo à toa. Não tenho porque reclamar disso.
Igual outro dia que eu vi um senhor com um bebê no colo, que eu presumi serem vô e neto, não tinha mais ninguém perto deles mas eles estavam em pé em frente a uma porta provavelmente esperando alguém, mas isso não vem ao caso. O fato é que achei, essa cena do dia-a-dia tão normal, a coisa mais fofa do mundo.
Tem uma gatinha na minha rua e eu sempre parava pra falar com ela, coisa de sentar no chão e ficar fazendo carinho, fiz isso com tanta frequência que o pessoal aqui da rua começou a me parar pra perguntar da gata. Era tão engraçado e estranhamente bonitinho.
Uma vez achei um cachorro perdido na rua, peguei uma espécie de barbante, fiz de coleira e sai andando com ele perguntando pra qualquer – e quando digo qualquer, é literalmente todo mundo – pessoa que passasse do meu lado se queria adotar um cachorro. Depois de fazer milhares de ligações e entrar na beira do desespero porque já era tarde e ninguém quis adotar, uma senhora pegou ele. Hoje em dia ele se chama Leo e é uma graça completa. Volte e meia vejo eles por ai, e outro dia ela me agradeceu por ter feito a ligação entre eles e falou que eu sou a tia do Leo. Meu coração se encheu de amor naquele momento.
Eu falei que não era uma metáfora, mas talvez seja. Eu nem sei se essas histórias são reais, ou se a vida é real. Afinal, o que é real? O que é realidade? Não vale responder o aqui e o agora porque isso seria uma resposta falsa. Acho que essa pergunta tá mais pra ser daquelas que a gente não espera resposta, tem um nome pra isso que eu me esqueci… retórica, o google me disse depois de eu achar que era recíproca e retrógrada. O ponto é que mesmo sem resposta faz pensar. Mesmo se tudo que eu falei seja real, o que seria a realidade pra mim afirmar que qualquer coisa no mundo é real? Eu não sei nem se eu posso dizer que sou real.
Ou talvez o ponto é que não tem ponto. E se tiver é ponto e vírgula. Dá um espaço, respira e volta a falar. Da realidade, da fantasia, da história ou da estória. Qual seria a minha? Não é retórica, mas só eu posso responder.
03h49. Chá quente com limão. Ou chá gelado de ervas com mel. Água e vinho. Preto e branco. Yin-yang.
03h50. Boa madrugada. Bom dia. Boa tarde. Boa noite. E se o dia vale pelo dia, boa manhã.
03h51. Pela hora posso afirmar, não acordarei de manhã. Só tarde da tarde. Ou do dia. A manhã do amanhã.
03h52. Virei relógio. Tic tac. Como meus tiques e meus ataques.
03h53. Meu cachorro, ainda deitado ao meu lado, dividindo um sofá de dois lugares, se mexe e sonha. Sonha e sonha.
03h54. Ou quarenta e cinco. Trinta e quarenta e cinco. Quarenta e cinco e trinta. O inverso do oposto é o real. E volta a pergunta da realidade.
03h55. Ainda sou relógio. Mas não serei mais. Isso foi uma metáfora ou um até nunca mais.

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