Um dia será apenas uma lembrança

Fotografia: Autor desconhecido

Para mais poesia ouça Oh my love – Layla

Meu dia não tinha sido dos melhores. Cheguei em casa, me sentei e, como quem tentava se acalmar, fechei os olhos e respirei fundo. Foi nesse momento que eu senti o seu perfume. Abri os olhos quase assustada e olhei em volta te procurando mesmo sabendo que não ia achar. Me encostei relaxando no meu sofá e ri abafado. Um riso de quem tinha se achado muito boba por ter realmente te procurado em volta. Um riso que quase era um choro porque quando procurei você não tava ali.
Olhei para o celular e nenhuma mensagem sua. Também não tinha ligação e nem sinal de fumaça. Não tinha nada que indicasse que você sentia a minha falta. Suspirei.
Pra evitar começar a chorar abri o computador e fui botar a playlist mais animada que eu tivesse, na procura entre pastas achei uma com o nome “amor”. Eu sabia que não deveria abrir ela, sabia sim, mas quem disse que eu consigo ser racional quando se trata de você? Abri e lá tinha de tudo que pudesse me fazer lembrar você. Entre playlists – que inclusive na mesma hora que vi, botei pra tocar – e fotos tinha a cópia de um e-mail que você tinha me mandado no meu aniversário:
“Oi minha linda, como você tá? 21 aninhos ein. Tá ficando velha né? Mas eu vou parar de brincar com isso porque eu sei o quão você fica puta e realmente se acha velha. Calma menina, você ainda tá muito nova e tem muito o que viver. Só não esquece que agora eu to incluso no resto da sua vida. E nem adianta brigar e dizer que não, quero ver você conseguir me tirar dela. Aliás, quero ver não, tudo bem.”
Parei e gelei. Meu estômago embrulhou e parecia sinceramente que eu iria vomitar. As lágrimas, que já tinham começado a correr pelo meu rosto desde que eu abri a pasta, se tornaram rios. Fechei os olhos, respirei e contei até dez. Olhei de novo para tela do computador e percebi que mesmo se contasse até um milhão ainda não estaria pronta pra ler a sua carta. Mas como você sempre diz, eu sou teimosa demais, e apesar de saber que continuar ali me faria mal, decidi continuar lendo.
“Mas menina, queria te dizer que você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida. E eu sei que você não acredita nesses clichês bobos que são ditos, mas queria te falar que eu achei você em meio a uma multidão de gente feia e sem graça. Eu era um dos feios e sem graça, só que você apareceu e trouxe luz pra minha vida. Você é a minha luz. você é a minha vida. E também é minha menina.
E sim, eu sei que você odeia que eu te chame de menina, e sim também, eu só faço isso porque você odeia. Mas você sabe que se eu implico tanto é porque eu te amo pra caralho e esse, bem ou muito mal, é o meu jeito de mostrar. Até porque se eu fosse demonstrar só com mensagens, telefones e cartinhas fofas você já tinha me dado o fora há muito tempo. Conheço a menina que eu tenho ao meu lado.
Inclusive, falando em cartas, isso era pra ser uma carta, e eu sei que seria muito mais bonito e romântico se tivesse sido assim, mas hoje eu não vou poder te ver e acabei tendo essa ideia não a tempo de enviar e chegar hoje.
Ai menina, você sabe que na nossa relação você que é a boa com as palavras, eu sou só o palhaço (tá vendo, pode ficar orgulhosa de mim, não fiz nenhuma piadinha sem graça e horrível. Ou fiz?), então a única coisa que tenho a mais para te dizer é parabéns e tudo de melhor pra você, sempre.
Beijos do seu eterno idiota.
Ah, e quase ia esquecendo de dizer, eu te amo pra caralho. É tipo do tamanho do universo, só que algumas infinitas vezes maior.”
Eu já não sabia mais o que pensar. Realmente não sabia. Eu só queria que você estivesse aqui do meu lado, tentando fazer uma lutinha comigo enquanto bagunçava o meu cabelo e me chamava de menina. Eu só queria você aqui perguntando se eu quero chocolate quente e quando eu responder que quero você falar pra mim ir fazer e aproveitar trazer um pra você também. Eu só quero você aqui do meu lado me convencendo a ver um filme de terror de madrugada e depois ficar tentando me assustar. Eu só quero você aqui do meu lado. Eu só quero você aqui.
Quatro meses já se passaram desde o meu aniversário e o nosso pra sempre durou tão pouco. Acho que eu queria poder falar que não deu certo por algum motivo bem dramático, alguma coisa grande sabe? Alguma coisa que tivesse me feito te odiar, seria tão mais fácil se fosse assim. Mas o que mais dói é que a gente terminou simplesmente porque não deu certo, simplesmente porque a porra do nosso amor foi fraco demais pra aguentar os problemas. Só que se ele é tão fraco porque não sumiu e desapareceu? Mas ele insisti em ficar aqui, dentro de mim, doendo e me fazendo rever cada segundo enquanto eu me pergunto se eu poderia ter feito algo diferente. Talvez se eu fosse menos egoísta, talvez se eu cedesse um pouco mais, talvez se eu mostrasse mais que me importava com você. Porque eu me importava, até demais, e ainda me importo apesar de tentar com todas as minhas forças não fazer. É foda pra caralho me sentir desse jeito sem nenhum poder sobre mim e o que eu sinto. Quer dizer, eu também me sentia sem poderes quando estava com você mas antes era um amor bom, que fazia bem; até não fazer mais, e a gente terminar, e ele continuar aqui me fazendo mal e me destruindo. Mas que merda, isso é tão clichê.
Respirei fundo mais uma vez e tirei essa música que foi a que tocou naquele café enquanto a gente discutia astrologia e você de repente parou de falar pra prestar atenção nela. Respirei fundo outra vez, e mais uma vez, e mais uma vez. Respirei, me levantei e fui tomar um banho porque eu simplesmente não posso fazer nada a não ser esperar o dia em que você vai virar apenas uma lembrança e esse amor vai parar de doer.

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