Vinte e quatro horas

Fotografia: Autor desconhecido

Para mais poesia I’ll be good – Jaymes Young

Eu vi que horas são, tarde da noite na madrugada de um dia. Vinte e quatro horas às vezes são o suficiente pra te apresentar tanta coisa. Pra te fazer enxergar e perceber coisas esquecidas demais para serem lembradas. E não é por querer, vai além da vontade. Vai além da própria responsabilidade. É uma questão que vai além de si. Mas vinte e quatro horas dividido por vinte e quatro dá uma hora. Uma hora dividido por sessenta dá um minuto. E um dividido por sessenta dá um. E às vezes em um segundo, ou menos, dá pra descobrir ou (re)aprender coisas que eram dadas como impossíveis. Em menos de um segundo, em um milésimo, ou menos, bem menos, tão menos que não dá nem pra ver passar, não dá pra contar, mas ele tá lá, e é nele que acontece uma vírgula do livro do destino que muda tudo. Muda tanto que não dá nem pra ver a mudança.
Um oi ou um adeus. Um tropeço em um guarda chuva aberto no meio da calçada ou olhar pra cima, enxergar ele, dar a volta por ele e encontrar alguém, aquele alguém. Decidir entre virar a primeira ou segunda esquina. Talvez eu escolha a terceira.
Uma vez voltando da casa de uma amiga já um pouco tarde decidi que ia pegar o caminho mais rápido e também mais escuro, e logo mais perigoso. Me convenci que não faria mal nenhum e que nada aconteceria, mesmo um duende na minha orelha mandando eu ir pelo outra caminho. Quando eu tava na esquina pra pegar aquele caminho vi um cachorro em cima do muro da linha do trem, fiquei gritando ele, mandando beijo, tudo pra ele descer, mas o bichinho continuava andando em linha reta e eu fui seguindo ele pra ver aonde ele ia parar e se ia conseguir descer o muro – porque eu realmente achava que ele ia cair e queria ajudar se acontecesse -, nessa de seguir fui pelo caminho mais longo e um pouco mais seguro, chegou o final do muro e o cachorro pulou. Ficou são e salvo. E eu tinha ido por aquele caminho só por causa do cachorro. Eu não tinha que pegar o caminho mais curto.
E essas coisas, esses chamados do universo acontecem tanto e com tanta frequência, mas a gente nem repara. Nem se dá conta. Acha que foi por vontade própria, porque tava afim que vestiu aquela camisa amarela com um desenho engraçado que fez o menino de 5 anos rir depois de sair do dentista, acha que descobriu aquela música que fez você dançar e esbarrar naquele senhor que te contou aquela história que influenciou na sua escolha pra faculdade sete meses depois só porque tem bom gosto. É tantos acasos que o destino mal cabe. A menos que o destino faça os acasos, faça a vontade própria, faça o bom gosto, o estilo, o sonho, a realidade. O destino faz tudo e você nem nota.
E em vinte quatro horas aconteceram fatos o suficiente pra amanhã você decidir que quer um picolé de manga e o moço atrás de você falar que é o preferido dele. E daqui a quatro anos e meio você pode tá casada com a irmã dele e decidindo se vão ou não adotar uma criança porque a vontade versus responsabilidade estão brigando, mas você só quer adotar porque a sua melhor amiga tá grávida e ela só tá grávida porque viu um vídeo de um bebê, e ela só viu esse vídeo de bebê porque ela queria ouvir música e apertou no link errado do youtube. Acasos, destinos, escolhas próprias que já estão traçadas. É estranho pensar que cada segundo é pré-datado, que já é escolhido por alguém que não eu.
É estranho pensar que as últimas vinte e quatro horas da sua vida até agora (até agora porque ainda vai ter muitas vinte quatro horas pra viver depois desse exato segundo) arquitetaram todo o resto da sua vida. Te fizeram notar tanta coisa que você nem percebeu. As suas últimas vinte e quatro horas, que você tem desde que completou suas primeiras vinte e quatro horas no dia em que nasceu, são as responsáveis pelo resto da sua vida.

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