Amo você, adeus

Fotografia: Autor desconhecido

Para mais poesia The only one – Layla

Eu, você e o barulho da chuva. O teu pé gelado por cima do meu, a tua mão que segurava a minha procurando por calor, o teu olhar era concentrado no filme que passava na televisão. Um cobertor verde e o cheiro de pipoca estourando, ela ficou pronta e no (quase) silêncio que deixou alguém no filme disse “eu te amo”. Por um segundo eu podia jurar que era você me dizendo aquilo, por um segundo eu quase respondi “eu também”.
Me levantei pra pegar a pipoca e você me segurou com força, me olhou como quem me implorava pra ficar. O microondas apitou mais uma vez e você percebeu que eu só iria na cozinha, me soltou mas o teu olhar continuou. Perguntei se vai querer suco e você sorriu. E riu como quem acha graça da pergunta. “Quero não, brigada”, você me respondeu com a voz mais doce que podia me oferecer. Você parou o filme para me esperar, ficou olhando a chuva cair do lado de fora da janela e quase em um sussurro repetia “eu amo você, eu amo você, eu amo você”. Tentei voltar pra sala fazendo o máximo de barulho possível pra que não percebesse que eu havia ouvido tuas confissões pra chuva, só que parecia que todo barulho do mundo não era o suficiente pra cobrir aquele silêncio que quase doía, aquele silêncio que não era dado por falta de conversa mas sim pela falta de palavras certas do assunto certo que parecia tão errado.
– Acho que exagerei no sal.
E você riu enquanto continuava olhando pra chuva como se esperasse que ela te desse alguma resposta.
Eu me sentei novamente ao teu lado e esperei você reiniciar o filme, mas a tua atenção na chuva era grande demais pra perceber qualquer coisa naquele momento.
Silêncio.
– Não vai falar nada?
Eu perguntei em uma última tentativa de quebrar aquela barreira de som que havíamos criado entre nós. Um som mudo.
– Falar o que?
– De eu ter posto muito sal na pipoca.
– Você sempre exagera, eu já to até acostumada a comer pipoca salgada, na verdade acho que nem saberia mais comer de outro jeito.
– Por que você vai embora?
A pergunta que calava fundo em mim já havia tanto tempo e ao mesmo tempo tão pouco. A pergunta que a resposta continha o assunto que era consequência de tanta falta de falar.
– Você sabe o porquê.
– Sei? Porque o porquê que eu sei é que você vai embora pra estudar fora.
– E é esse o motivo ué
Mas uma vez tinha usado a sua voz doce e eu odiava tanto esse teu lindo tom de voz. Você sempre usava ele, sem nem mesmo perceber, quando tava escondendo alguma coisa, quando tava se controlando pra não dizer alguma coisa, pra não gritar aos quatro mil ventos alguma coisa, pra não explodir. Você só usava ele quando o teu verdadeiro “porquê” se encondia de você mesma.
– Não, não é. Quer dizer, óbvio que isso é um motivo Manu, estudar arte em Paris sempre foi teu sonho, mas não é todo motivo. Você não tá dizendo algo.
– O que?
E quase chorando você me perguntou isso. Na verdade, nesse teu “o que” continha mais uma pergunta pra si mesma do que pra mim.
– Isso você que tem que me responder.
(…) Silêncio.
– Quem você ama Manu?
– Amo? Ué, eu amo muita gente né. Porque isso agora?
– Quando eu cheguei na sala você repetia “eu amo você” algumas vezes, ama quem?
(…) Silêncio.
– Quem você ama Manu? Quem você ama? Porque eu sinceramente não sei de mais
– VOCÊ! É você que eu amo tá bom?
O seu berro com certeza tinha me deixado sem reação. Você revirou os olhos e mordia os lábios, você tentava se controlar, você não queria falar o que sentia.
– Eu amo você mais do que eu queria, eu amo tanto você que parece que eu vou explodir e é por isso que eu to me mudando, pra fugir de você e desse sentimento idiota que faz me sentir as piores e melhores coisas desse mundo. Entendeu agora? Esse é o porquê que você tanto fazia questão. Tá feliz, tá feliz com a resposta agora?
– To.
Você me olhou surpresa como quem realmente não esperava por essa resposta.
– Eu to feliz porque eu também te amo, muito, muito, muito mesmo. Eu também me sinto desse jeito, parecendo que vou explodir. Eu também sinto essa bipolaridade de melhor e pior coisa do mundo. Eu também tenho medo desse sentimento porque eu nunca senti nada nem parecido por outra pessoa, e eu sei que às vezes eu também tenho vontade de fugir e nunca mais ouvir falar de você. Eu tenho disso também sabia? Mas eu não faço porque mesmo que eu esteja a infinitos quilômetros longe de você essa porcaria de sentimento não vai passar. Mesmo que eu vá pra Plutão vou continuar te amando do mesmo jeito e da mesma insana intensidade. Entendeu? E sinceramente se você se sente metade de como eu me sinto nada vai passar com você indo embora. Não mesmo. Talvez só aumente e piore porque ai você vai ter que lidar com o fato de a gente não estar mais lado a lado, estar junto e
Você me beijou. Você simplesmente interrompeu toda a minha fala e me beijou. Depois olhou nos meus olhos e sorriu.
– Eu te amo Bê, e é justamente pro nosso sofrimento ser menor que eu acho melhor a gente terminar. Eu já te expliquei isso.
– Eu sei.
– Eu acho que seria complicado demais um relacionamento a distância, a gente iria se estressar e acabar terminando numa briga. Ficaríamos com raiva um do outro e seria horrível. É melhor terminar agora que a gente tá bem. É melhor terminar agora que só o que vai restar são lembranças boas.
– Eu sei.
– Então acho que
– Sabe o que eu não sei?
– O que Bê?
– Muita coisa que eu não sei.
Você riu. E apesar de que naquele momento eu estava muito puto, seu riso simplesmente me contagiou. E eu sorri.
– Mas é que eu realmente não entendo, tipo nem um pouco, não entra na minha cabeça, é isso.
– A gente ter que terminar?
– Sim. Não. Talvez. Eu sinceramente já nem sei mais. Acho que não entra na minha cabeça você ter dito pela primeira vez que me ama agora, justo agora quando falta poucas horas pra você viajar. E por que agora se em um ano de namoro eu já te disse tantas vezes e você resolve só dizer agora? Quer dizer, isso nem parece justo. Por que você nunca disse antes? Nem uma única vez.
– Porque eu precisava entender o que eu sentia, precisava saber se era realmente amor antes de te falar.
– E por que você entendeu justamente agora?
– Porque eu comecei a imaginar minha vida em Paris, sem você, e essa vida dói. Quer dizer, eu sei que vai ser tudo maravilhoso e lindo mas não ter você lá dói. E foi ai que eu descobri que te amava, porque imaginar eu lá sem qualquer outra pessoa não doía.
– Você sabe que eu preciso ficar aqui né?
– Eu sei, eu sei. Eu não to te pedindo pra ir comigo e abandonar sua vida. É só que eu achei que precisava te dizer hoje que te amava porque talvez não tivesse mais essa chance, só que eu não tinha coragem de dizer “olha eu te amo, beijinho e fica bem tá? to indo”, eu não conseguia fazer isso. E talvez eu acabasse nem te falando nada se você não perguntasse.
– Mas não é isso que você tá fazendo, falando “olha te amo, fica bem e tchau”?
– É.
Você olhava nos meus olhos e então começou a chorar.
– É exatamente isso que eu to fazendo.
Você me deu um beijo, o mais longo e mais curto de toda a minha vida, e saiu. Foi embora. Mas não sem antes olhar pra trás, já na porta.
– Se cuida tá? Amo você. Adeus.

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