Escrever

Fotografia: Autor desconhecido

Para mais poesia  Em paz – Maria Gadu e 5 a seco

Leia um texto meu e me leia nas entrelinhas. Aprenda um pouco sobre mim. Me decifre.
Quando comecei a escrever não tinha noção desse risco, apenas escrevia em um caderno que tinha uma capa bonitinha porque não sabia com quem falar, e nem sabia o que falar. Era meu jeito de desabafar sem nem saber o que estava desabafando. Se você pegar um caderno ou um diário meu antigo (que eu guardo todos até hoje, inclusive) você vai rir. E é engraçado mesmo. Eu era uma garota, uma pirralha com seus 8 ou 10 anos (talvez mais nova, talvez mais velha, isso vai depender de que caderno pegar) que tentava falar de coisas que nem entendia direito. Na verdade eu não entendia de nada direito. Até entendia bem das minhas barbies e brinquedinhos que enfeitavam as prateleiras do quarto, mas de sentimentos, o que eu sabia? Não sabia. E talvez nem saiba até hoje. Mas hoje em dia eu já li o suficiente pra fingir que entendo. Mas antes, amigo, eu não sabia nada de nada. Não entendia mesmo. Mas eu sentia. Eram problemas de uma meninas de seus 8 ou 10 anos, mas eram problemas que, pra mim, naquela época e com aquela idade, eram coisa séria e eles me incomodavam, então, mesmo sem saber fazer, eu escrevia sobre qualquer outra coisa pra fazer passar. É a terapia da caneta.
Mas eu sempre achei que isso ia passar. Nunca achei que iria levar pro resto da vida essa minha mania. Quer dizer, sempre fui do tipo que amava de paixão alguma coisa e de repente cadê aquela paixão? Foi assim com o balé, o jazz, a dança do ventre e meu laptop do batman. Foi assim com minha amarelinha, o meu jogo de pizzaiolo e a minha máquina da fazer sorvete. Foi assim com bastante coisa, então porque não seria assim com a escrita?
Os anos passaram e eu nunca parei de escrever. Escrevia em diários, em folhas aleatórias e até escrevia algumas músicas. Porque sabe, também teve uma época em que teimei que seria cantora e teria uma banda, mas desisti quando vi que pra isso me sobrava talento, só que no caso a falta dele.
Mas enfim, entre tantas paixões, a escrita permaneceu e foi se enraizando até que chegou o momento em que eu já não sabia mais viver sem uma caneta e um papel.
Mas eu nunca fui de sair por ai mostrando meus textos. Em geral mostrava alguns pra minha mãe (no caso, até hoje eu ainda mostro a maioria pra ela) mas só ela mesmo. Achava muito estranho essa coisa das pessoas lerem meus textos e ficarem tentando me decifrar, ficarem tentando saber o que pensava enquanto escrevia o texto. Mas com o tempo, e a minha mania de escrever durante as aulas ao invés de prestar atenção, as amigas viam e pediam pra ler. Confesso que ficava meio assim mas acabava deixando, quer dizer, que mal podia haver? Com muito insegurança, medo e friozinho na barriga sempre acabava deixando. Elas elogiavam. Talvez não gostassem tanto quando falavam e só quisessem dar aquela moral, mas no caso acabava dando certo. Fui me abrindo mais a deixar as pessoas lerem até chegar ao ponto de postar na internet e deixar pessoas que nem conheço me lerem por ai.
Até confesso que um dos meus maiores medos ao postar na internet era mesmo alguém copiar e não dar seus devidos créditos, mas quanto a isso superei. Inclusive preciso falar que ainda acho mais estranho conhecidos lerem meus textos do que alguém que não conheço e achou meu blog por ai. Até porque tem essa coisa chata de que quem te conhece quer encaixar o texto na sua vida, coisa que alguém que não te conhece não vai poder fazer. Essa pessoa só vai poder imaginar se você está apaixonada ou triste. Ou se essa história é real ou não. Quando alguém que não conheço lê meus textos a sua imaginação pode voar solta, ela não sabe muito, ou nada, sobre mim e não tem como encaixar. No texto que escrevi “ovelha negra” uma pessoa comentou que sentia muito por mim e que os pais dela eram mega tranquilos. Juro, meus olhos se encheram de lágrimas ao ler aquilo porque, primeiro, ela captou um sentimento ali que nem existia de verdade, era apenas uma personagem e minha vida não tem nada a ver com a ovelha negra. E segundo, ela veio falar comigo, ela se comunicou e de maneira extremamente breve veio me contar um pouco da sua história. E ela não tentou encaixar na minha vida justamente por não me conhecer. Agora, se alguém que me conhece leu aquele texto, aposto que achou que eu tava com algum problemas com drogas, quando era apenas e somente um personagem e, enfim, fugi do ponto.
Mas voltando a ele, o fato é que, eu adoro escrever. Aliás, sou completamente apaixonada e não sei viver sem. Mas ao compartilhar com o mundo as minhas palavras as pessoas, me conhecendo ou não, passam a ter o poder de me ler, mesmo nas entrelinhas. Mesmo nas vírgulas, acentos e ponto finais. Dá pra me decifrar por aquelas simples e tão complexas palavras. E isso é tão estranho.
Logo eu, que não sou tão boa de falar de mim, que gosto de carregar um mistério (que acho que não existe mesmo, mas gosto de fingir que sim) sobre mim, que gosto que não saibam tanto a meu respeito, tenho a minha vida, minha alma, minha mente e meu coração abertos pra quem quiser ler e entender. E pensar o que quiser também. Tirar as suas próprias conclusões. Sou tantas em uma só. Afinal, pensa comigo, de todas as pessoas que nunca vi que leem meus textos, aquelas que acompanham meu trabalho, como elas imaginam que eu seja? Sou tantas. Sou uma. E isso é bom, maravilhoso, mas também horrível.
Acho que escrever, quando é pra si mesma, tem muito disso, não faz sentido. Talvez porque só eu mesma preciso entender, talvez porque nem eu mesma precise entender. Não depois de já escrito.

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