Outubro Rosa

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Fotografia: Regina Frael de Abreu

A pessoa da foto é a minha tia, ela era sempre assim sorrindo, fazendo bobeira e falando merda.

Para mais poesia Sem sol, sem lua – Diwali

Eu não queria, eu não queria, eu não queria fazer um texto sobre isso. Eu sabia que ficaria mal, eu sabia que quem conhecia ela e lesse também ficaria mal. Tem certas coisas na vida que é melhor não lembrar, certos períodos que a gente passa porque tá sendo obrigado mas depois é melhor esquecer, só que quem dera se essa fosse uma tarefa fácil.
Antes mesmo de outubro chegar eu já tinha tido essa ideia mas não fiquei enrolando pra coloca-la em prática. Dai outubro chegou e a ideia continuava apenas na minha cabeça, não era uma ideia ruim, pelo contrário, é só que lembrar é difícil. Mas eu não consegui fugir, sempre que mencionavam outubro rosa eu lembrava dela, sempre que lembravam que a gente tem que se auto-examinar, e tomar cuidado, e fazer exames, e tudo, eu lembrava dela. O ela na frase é a minha tia Regina.
A ideia que eu mencionei era fazer um texto falando sobre ela, sobre a história dela com o câncer de mama.
Eu tenho certeza que ela adoraria que eu fizesse um texto sobre ela e não se importaria de eu estar dizendo seu nome, mas obviamente ela iria preferir que fosse em outra situação, uma feliz. Por isso, tia se você estiver lendo esse texto dai de cima espero que não se importe, mas vamos tentar conscientizar as pessoas aqui tá?
É, essa história não teve final feliz, em abril de 2013 ela faleceu. Foi dia 24 ou 25, eu nunca lembro e eu só gravei essa data porque ou ela faleceu ou o velório foi uma exata semana depois de seu aniversário. E eu tive que olhar no calendário pra ver qual era o dia e quase consultei o calendário de 2014, e dai lembrei que não foi ano passado e sim ano retrasado. Já fazem dois anos, já fazem mais de dois anos e ainda dói muito falar dela. Eu sinceramente acho que eu nunca vou conseguir me acostumar a ter que sempre falar dela no passado e nunca poder falar no presente. Eu acho que nunca vou conseguir me acostumar a ficar sem ela.
O interfone toca e se eu estiver distraída eu vou achar que é ela. O telefone toca e se eu estiver distraída eu vou achar que é ela. Eu quero sair de casa e andar por ai e eu penso em ir pra casa dela. Só que essas coisas nunca mais vão acontecer.
Ela nunca mais vai me ligar perguntando se está tudo bem, ela nunca mais vai aparecer aqui em casa as nove da manhã justamente no dia em que estou em casa e posso dormir até mais tarde, ela nunca mais vai conversar comigo sobre coisas aleatórias enquanto a gente come milkshake ou batata-frita, ela nunca mais vai me encher o saco, ela nunca mais vai fazer nada disso comigo.
A intenção do texto não era falar isso tudo, a intenção do texto era falar sobre o câncer mas é impossível falar nela e não lembrar desses “nunca mais”. Mas ok, foco né?
O assunto câncer é um certo tabu pra mim. Eu fico mal quando o assunto vem à tona, eu choro do começo ao fim do filme “Pronta pra amar” porque eu penso nela e fico tentando entender o que ela passou e o que se passava na cabeça dela.
Minha tia descobriu um nódulo no peito acho que uns dois anos antes de tudo isso e ela não foi tratar. Ela não tinha plano e foi pelo público mas ainda sim ela enrolou mais do que deveria, do que podia; ela fazia os exames e não ia buscar, isso quando resolvia fazer. Eu sei que só mais de um ano depois é que foi dado o resultado final, câncer. Mas ainda dava pra operar e ela operou. E ela ainda ficou viva por uns dois meses depois da operação, mas nunca ficou bem de fato. Muito magra, mal comia, depressiva. Ela teve que tirar toda a mama e ela amava aqueles peitos gigantes dela, mas ela ia conseguir colocar silicone. Só que não adiantava, ela não ficava bem.
Ela veio dormir aqui em casa em seus últimos dias de vida e foi realmente muito ruim. Não entrarei em detalhes mas ela tava realmente muito, muito, muito mal. Mas dentro de mim eu tinha a absoluta certeza que ela sairia dessa.
O meu ponto com esse texto é que se você achar algum nódulo em você, algum caroço estranho, qualquer coisa, vai em um médico, se cuida. Se minha tia tivesse cuidado antes, quando descobriu, talvez hoje ela estivesse do meu lado me ajudando a fazer esse texto e ele teria um final feliz.
Sabe, pensa em si mesma, pensa nas pessoas que te amam. A gente sempre acha que nunca é nada, que nada ruim vai acontecer com a gente mas infelizmente acontece. Só que hoje em dia existe algo chamado medicina e ela pode cuidar desses problemas, principalmente quando ainda tá no começo. Então, por favor, por favor, não seja que nem a minha tia e se cuide, se previna, faça o auto-exame e vá à um médico.
O caso da minha tia não terminou bem mas eu conheço casos, inclusive de pessoas próximas a mim, que terminaram muito bem e que hoje em dia são super saudáveis e sem vestígios nenhum de câncer. As coisas dão certo se você cuidar tá?

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